Por que tantas pessoas costumam comparar o famoso seriado norte-americano com a política brasileira e o seu desenrolar?

House of Cards Brasil

Para começar, é preciso entender o contexto da série. Frank Underwood, o protagonista, é líder do partido democrático no congresso, tem caráter manipulador que faz de tudo para conseguir o poder. Então, passa a articular uma série de iniciativas que visam ampliar sua esfera de influência. Ao desenvolver um golpe, torna-se vice-presidente e logo em seguida atua para o acontecimento do impeachment do então presidente.  Logo depois, começa sua atuação como governante dos EUA, mostrando cada vez mais sua habilidade em controlar todos a sua volta.

No tocante ao cenário político brasileiro, com o recente impeachment da presidente Dilma Rousseff e ascensão do seu vice, Michel Temer, as comparações com a série acontecem de um modo mais constante pela forma similar como os fatos vêm acontecendo.

“Povo do Brasil, não é uma competição. Vocês não têm ideia de onde as pessoas podem tirar inspiração. Fiquem atentos”, disse o artista que faz parte do elenco em vídeo publicado pela produção. No dia 17 de maio, o perfil da série no Twitter satirizou o presidente Michel Temer depois da revelação da delação do empresário Joesley Batista, do grupo JBS.

Depois do escândalo político, a produção compartilhou em sua página oficial, em português: ”Tá difícil competir”. A publicação foi compartilhada mais de 137 mil vezes.

Em um dos seus discursos Frank Underwood falou de maneira mais impactante, e apavorantemente análoga à conjuntura brasileira.

Por muito tempo, nós em Washington temos mentido para vocês. Nós dizemos que os servimos, quando na verdade servimos a nós mesmos. E por quê? Somos levados pelo nosso pior desejo de reeleição. Nossa necessidade de continuar no poder ofusca o nosso dever de governar.
Isso acabará hoje. Hoje eu falarei a verdade. E a verdade é esta: o sonho americano falhou com todos vocês. Trabalhar duro? Seguir as regras? Não garantem sucesso. Seus filhos não terão uma vida melhor do que você teve. Dez milhões de vocês nem sequer têm emprego, mesmo querendo muito.
Fomos quebrados por Previdência Social, Medicare, Medicaid, por programas de assistência social, por bolsas do governo. E esta é a raiz dos problemas: programas de governo.
Deixe-me ser claro. Vocês não têm direito a nada.
Vocês não têm direito a nada.

Assim como no enredo, em que Frank acentua os problemas dos programas sociais, e sugere que eles atrapalham o desenvolvimento econômico, no Brasil, se discute as reformas nos direitos trabalhistas e previdenciário, além do papel dos programas de assistências governamentais, como o “bolsa família”.

A série evidencia que não existe “um” governo, como a maioria da população julga. Pelo contrário, o governo envolve um processo de tomadas de decisões cujo é fruto da negociação e, muitas vezes, das trocas de favores, cada um com seus interesses específicos e próprios. Exemplo disso foi o desenvolvimento do impeachment da presidente Dilma Rousseff, ela não possuía grande apoio dos parlamentares e, provavelmente, o presidente da câmara, na época, Eduardo Cunha se mobilizou de forma mais proativa para atender a seu desejo que então fora executado. Como afirmou Steve Horwitz (economista estadunidense da Escola Austríaca de Economia), House of Cards é a política sem romance: seu roteiro demonstra que os políticos estão fundamentalmente voltados para a satisfação de seus interesses.

A obra deixa claro também o papel da mídia que pode servir tanto como aliada como inimiga dos políticos, pois influenciam a opinião pública. Em House of Cards, Frank tenta conseguir apoio de jornalistas para sempre publicarem fatos os quais comprometam seus adversários através de Zoe Barnes, repórter de um jornal de grande circulação. Na realidade não é diferente, para o afastamento de Dilma, por exemplo, os grandes veículos de comunicação utilizaram do seu poder para desacreditar à imagem da então presidente.

Assim como o desejo de Underwood em querer aumentar sua zona de domínio, o corpo social possui a capacidade líquida de se adaptar a diferentes contextos em busca pelo sucesso pessoal. O fim das utopias, para o sociólogo Zygmunt Bauman, é a perda do caráter reflexivo em relação à sociedade e, por consequência, a perda da noção de progresso como um bem que deve ser partilhado e de comum acesso a todos. A busca do prazer individual é o fim último da sociedade líquida.

Dessa forma, o desejo individual por ascensão econômica e social faz com tais sujeitos esqueçam primordialmente dos seus papéis como representantes do povo.

A sociedade brasileira, como objeto de análise, vive um momento de fim das utopias, diferente da década de 70 em que se vivia o “milagre econômico” a sensação de fluidez e organização social (apesar de não ser na realidade o “mar de flores”). Hoje, nos deparamos com uma sensação de impunidade e desgoverno que paira tanto pelo congresso nacional como também no poder judiciário.

O jeitinho brasileiro investido como algo positivo, inapto ao brasileiro vem se tornando algo que Sérgio Buarque de Holanda já considerada à sua época como algo que mais atrapalha do que beneficia o nosso comportamento. O caráter ultrajante de ações corruptas banalizadas, o simples ato de furar uma fila e o crime de corrupção estatal, talvez, seja só uma questão de oportunidade.

A falta de representatividade em ações honestas que respaldem o bem-estar comum é o reflexo de uma sociedade desmoralizada a qual aceita passivamente os escândalos recorrentes de lavagem de dinheiro, por exemplo. A crise política vivenciada é um duelo de poder, o qual interessa fundamentalmente aos desejos individuais, um Castelo de Cartas que decide o futuro do país.

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