A arte é uma das formas mais utilizadas para explorar as diferentes vertentes da sociedade, dentre elas, a política. Ainda mais com a série baseada na obra homônima Game Of Thrones, da saga de livros “As Crônicas de Gelo e Fogo”. Sendo a história um verdadeiro deleite para fantasiar, observar e criticar as relações de poder e atos heroicos que a terra média de George R. R. Martin proporciona. E muito além das espadas, reis, incestos e criaturas místicas, a obra é pautada em volta de um jogo político, a disputa pelo Trono de Ferro – símbolo do poder absoluto – que vem a protagonizar diversas campanhas militares, sendo a Rebelião de Robert e a Tomada da Baia dos Escravos, de Daenerys Targayen os arcos observados neste artigo.

O destaque apresentado será pela diferença de como os líderes conduziram e concluíram seus movimentos individualmente, cabendo uma perspectiva doutrinária acerca de quem esteve mais próximo de um golpe ou revolução.

Mas qual a importância de saber a diferença de Golpe e Revolução?

Para Paulo Bonavides, dos temas políticos de nosso tempo, a Revolução entra na categoria mais sugestiva daqueles que merecem estudo profundo e sistemático. Não somente pela importância de que se reveste, mas também em virtude dos abusos a que vem sendo exposto e da anarquia observada ao redor desse conceito, da parte de quantos o usam sem refletirem nos limites de seu emprego, em face de determinadas realidades políticas e sociais de nossa época.

Entendendo a Revolução.

O ativista político espanhol Ortega y Gasset é categórico ao afirmar que a revolução é um tema aberto, cabendo diversas interpretações e investigações pelos historiadores, cientistas políticos, juristas e sociólogos. Mas podendo ser compreendida em três acepções importantes: a histórico-cultural, jurídica e política.

A Revolução Histórico-cultural é realizada quando há substancialmente uma interrupção de um período cultural. Dessa quebra resulta a descontinuidade e consequente inauguração de um novo desenvolvimento histórico. Como na campanha militar da conquista da Baia dos Escravos em Essos. A Khaleesi, – Quebradora de Correntes e Mhysa – passa a impor uma mudança radical do sistema escravocrata, concebendo um impacto muito além dos fatores econômicos oriundos da relação de trabalho. A contar que o modo de produção escravista define o sistema de estratificação social, a forma que se concebe o próprio Estado e o Poder político. Sem o comércio de escravos, todas as elites iriam mudar sua fonte de poder e renda, podendo surgir uma nova classe social com essas mudanças.

Essa vontade de mudar o sistema é bem esplanada em um diálogo com seu ex-conselheiro Jorah Mormont:

    Daenerys Targaryen: “Os Mestres bebem lágrimas dos braços de suas mães. Eles mutilam meninos. Treinam garotas pequenas na arte de adorar homens velhos. Eles tratam homens como animais…”
Jorah Mormont: “É tentador ver seus inimigos como um mal, todos eles. Mas há o bem e o mal dos dois lados em todas as guerras já travadas”
Daenerys Targaryen: “Que os sacerdotes discordem sobre o bem e o mal! A escravidão é real. Posso acabar com isso. Eu terminarei. E vou acabar com os que estão por trás disso… eles podem viver no meu novo mundo ou podem morrer no antigo.”

O idealismo por trás de sua campanha em busca de libertar a população escravizada na Baía dos Escravos fornece todas as condições para uma revolução histórico-cultural e social.

Na imagem Robert enfrenta o príncipe herdeiro Rhaegar Targaryen
A Rebelião de Robert, apesar de gloriosa, apresenta vários viés totalitários.

Em contraponto, a gloriosa Rebelião de Robert, apesar de fascinante e apresentar uma série de atos de vingança em virtude de um governo descontrolado e desgastado, está repleta de atos totalitários e oportunos. A começar pela ausência de interrupção de período cultural. Visto que o resultado da rebelião não altera nenhuma classe social e mantém toda a ideia de dinastia real e cultura estritamente medieval. Sendo consequentemente diminuído a um golpe de estado da família Baratheon sobre a Targaryen.

Já a revolução jurídica de Bonavides carrega um teor mais técnico. Do ponto de vista jurídico a revolução ocorre com a quebra do princípio da legalidade, a queda do ordenamento jurídico de direito público, sua substituição pela nova normatividade que advém da tomada do poder e da implantação e exercício de um poder constituinte originário. Ou melhor, o revolucionário deveria destituir o governo e suas leis e em seguida instaurar um regime substancialmente diferente.

Como no Direito de Essos não há a presença expressa de códigos positivados, a contextualização nos induz um direito consuetudinário que garante o poder estatal. E na tomada da primeira cidade da Baia, a grande Astapor, seu primeiro ato é destituir o poder dos mestres e instaurar um conselho composto pelos nativos. Seguindo à risca a doutrina. Mesmo que o conselho não tenha durado muito.

Nesta assertiva Robert acerta em alguns pontos. Ele certamente quebra a legalidade e com a retomada do pequeno conselho pode-se entender um poder constituinte originário. Mas peca por manter vários membros do conselho do governo anterior e reafirmar políticas conduzidas pela dinastia Targaryen. Confirmando mais uma vez como ele preza pela conservadora forma de governo, e seu intuito foi meramente a sua tomada e extinção da família Targaryen. 2 a 0 pra Daenerys.

A ideia de Revolução Política certamente é a mais comum no imaginário popular. Sendo entendida como uma mudança no domínio político, e um largo processo de transformação no sistema de normas que estabelecem as condições de legalidade.

A exemplo da Destruidora de Correntes, quando ela passa a dominar a Yunkai, e recebe o apelido de Mhysa (mãe). Com um olhar político além de poético, o grande ato de ser carregada pelos ombros da multidão não apenas consolida uma mudança do domínio político pelo uso da violência do seu exército, isso também legitima o seu poder diante o povo.

Afinal, qual a diferença entre revolução e golpe?

Para diferenciar de fato o que estabelecemos aqui entre golpe e revolução, deve-se primeiramente considerar se houve uma mudança do sistema político. Em seguida de uma eventual remoção da velha ordem social, o advento de uma nova ideologia que sirva de inspiração e base ao regime recém-instituído, e uma alteração essencial na forma ou sistema de governo. Verificando esses pontos, acho que seria claro declarar que de fato houve revolução e não golpe de Estado.

Bonavides acrescenta ainda que o golpe de Estado de modo usual é contra um governante e seu modo de governar. Ao passo que a revolução se faz contra um sistema de governo ou feixe de instituições; contra a classe dominante e sua liderança; contra um princípio de organização política e social e não contra um homem apenas.

Então, enquanto Robert e todos seus aliados se preocuparam com a dinastia Targayen, Daenerys lutou contra toda uma classe dominante de mestres de escravos e aboliu uma prática que jamais deveria ter existido.

Em Meeren, Daenerys conversa com Tyrion sobre a sua próxima campanha, a conquista de Westeros.
“Lannister, Baratheon, Stark, Tyrell… todos eles são apenas raios de uma roda. Esse está em cima, depois aquele está em cima, e assim por diante ela gira, esmagando aqueles que estão no chão. Eu não vou parar a roda. Eu vou quebrar a roda.”
Daenerys Targaryen

O sucesso de governar a Baia dos Escravos sem correntes faz jus ao seu título de libertadora. Espera-se que seu desempenho de inovar se repita em sua conquista em Westeros. Porque quebrando a roda que domina os 7 reinos, além de mudar os rumos da história da série, revigora a ideia aqui produzida de acrescentar um novo título dificilmente compreendido: a revolucionária.

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