Imaginemos por um instante como seria ficar sem enxergar por um determinado tempo. Qual seria sua primeira reação? Medo, angustia e pavor? Ou, levaria como algo normal? Essa situação de alguma forma seria complicada, pois, modificaria a rotina de uma pessoa, e, barreiras como calçadas desniveladas, materiais com fins educativos e educacionais não acessíveis, obstáculos nos ambientes e o preconceito seriam latentes.

Isso acaba sendo uma realidade para muitos brasileiros, visto que de acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE de 2010, no Brasil cerca de 528.624 pessoas são cegas. Desta forma, discussões acerca da educação e empregabilidade é um fato inerente à essas pessoas; pois, muitos se questionam, é possível ter uma educação de qualidade e oportunidades de emprego para pessoas com deficiência visual? Antes de responder essa pergunta, peço que volte a imaginar e pensar o como seria a vida desses sujeitos no Século XX em meados da década de 30?

Nascida em 28 de maio de 1919, na cidade de São Paulo/SP, Dorina de Gouvêa Nowill veio a este mundo com o intuito de modificar a educação e a vida de cegos no Brasil e no Mundo. Ela não nasceu cega, porém, mediante uma doença não diagnosticada na época, aos seus 17 anos, Dorina acabou ficando cega. Como muitas pessoas que ficam neste estado acabam desacreditando da vida, principalmente na época em que ela vivia, pois, não se falava de educação inclusiva, e, as pessoas com deficiência eram estigmatizadas a tal ponto que eram segregadas, esquecidas. Porém, Dorina Nowill fez o diferencial para a época, pois, ela foi a primeira cega a estudar em uma escola regular no Brasil, a Escola Normal Caetano de Campos, onde posteriormente se tornou parte do membro do quadro de professores, ensinando professores como atuar na educação de cegos.

Como dito, ela investiu em sua educação, fez o magistério, fez uma especialização nos Estados Unidos na Universidade de Columbia com ênfase na educação de pessoas cegas; e, ao voltar ao Brasil, lutou veementemente para promover uma educação de qualidade as pessoas com deficiência visual. Ela lutou para que livros fossem escritos em braile, lutou para que regletes e pulsões fossem disponibilizados, bem como propiciou a difusão de materiais impressos em braile.

Dorina Nowill não ficou esperando que as coisas acontecessem, ao invés disso, foi a luta para que uma educação de qualidade fosse propiciada a pessoas cegas, ao ponto que foi reconhecida em âmbito internacional por suas ações na educação inclusiva das pessoas com deficiência visual. Hoje já é possível falar em educação inclusiva por meio de suas ações; e, uma frase de sua autoria que pode ser citada é:

“Há sempre algo mais além dos males e das deficiências que a vida nos apresenta. Para além da dúvida, existe a fé. Para além do sol, existe o calor e a energia quando a luz apaga. Para além da vida, a eternidade.”

            Dorina Nowill faleceu em 29 de agosto de 2010, mas, ela permanece viva em seus trabalhos que foi realizado, pois, através de sua luta e dedicação, trouxe a existência o Instituto que leva seu nome, e, esse Instituto possibilita a elaboração de materiais que permitem que pessoas cegas possam estudar, ler e desenvolver seus papeis em sociedade.

Lembra da pergunta feita no começo? Se é possível uma pessoa cega estudar e trabalhar? A resposta é sim! Quando a pessoa se dedica, não tem medo de lutar, acredita em seu potencial mesmo que seus próprios familiares e a sociedade dizendo que você não é capaz! O diferencial está em acreditar em si mesmo e ir lutar. Barreiras irão existir muitas, contudo, vencê-las é imprescindível. É possível sim uma pessoa cega estudar e trabalhar, entretanto, como qualquer pessoa, tem que ir à luta.

Finalizando esta pequena memória de Dorina Nowill, quero agradece-la aonde quer que ela esteja, pois, através de sua vida, hoje eu e meus amigos e amigas podemos estudar com garantias e direitos ao acesso a materiais didáticos com acessibilidade. Sua vida mudou a nossa vida, e, o brilho deixou de enxergar, trouxe luz a muitos que não enxergam.

Obrigado pelo século de sua existência!!!

Thiago Fernando de Queiroz

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