No dia 5 de junho de 2019, aconteceu a abertura do XII Congresso Científico e Mostra de Extensão da Universidade Potiguar – Campus Mossoró, que contou com as palestras da escritora e filósofa Djamila Ribeiro e Dorgival Dantas. Na oportunidade, o Jornal Lumos Jurídico e o Projeto de Pesquisa em Direitos Fundamentais e Políticas Públicas (DIFUNDA) da UnP entrevistaram Djamila em uma conversa extremamente valiosa ao passo que se discutiu temas relevantes que a filósofa trabalha em suas obras, tais como o encarceramento das mulheres negras e segurança pública, lugar de fala, a importância de se valorizar os saberes construídos historicamente pelas camadas socialmente vulneráveis, além de reconhecermos as diferenças regionais existentes dentro do Brasil como fator determinante para o desenvolvimento de um projeto político e social inclusivo e que respeite tais diferenças.

Djamila Ribeiro é uma filósofa e ativista pelo feminismo negro, sendo uma das maiores porta-vozes em âmbito nacional acerca das pautas com o recorte de gênero, raça e classe. Mestre em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), a acadêmica já foi secretária adjunta de Direitos Humanos e Cidadania da cidade de São Paulo na gestão de Fernando Haddad em 2016, publicou dois livros: “O que é lugar de fala?” (2017) e “Quem tem medo do feminismo negro?” (2018), além de organizar a Coleção Feminismos Plurais. Recentemente, foi escolhida pelo governo francês para ser homenageada no programa “Personalidades do Amanhã”, projeto este que selecionou uma pessoa por país da América Latina e Caribe destacando o seu impacto atual e futuro.

Nas suas obras, Djamila destaca a importância de romper com a universalidade do discurso, reconhecendo as diferenças existentes entre as mulheres e a população negra, uma vez que as pautas das mulheres negras são diferentes daquelas levantadas por mulheres brancas, tendo em vista o histórico de opressão e violência institucional que recaiu de forma diferente sob cada uma delas.

Na entrevista, ao ser perguntada acerca da evolução da condição de mulher negra na sociedade brasileira, Djamila se utilizou como exemplo e destacou que “fazer parte dessa geração de expansão das universidades públicas, dos subsídios para as universidades particulares foi fundamental, sobretudo sobre esse debate que os movimentos negros estavam fazendo há muito tempo sobre ações afirmativas, sobre a necessidade dessas políticas e que vai muito ao encontro de tudo aquilo que lutei desde cedo, uma vez que sou filha de militante”.

Na atualidade, Djamila Ribeiro pensa que o debate fundamental e urgente a se fazer é a segurança pública no Brasil, “que é uma segurança pública voltada para a repressão, sobre

como essa guerra às drogas, na verdade, é uma guerra contra a população negra… como essa matança nesse país não gera comoção nas pessoas. Acho que um debate que é urgente e fundamental para mim e para qualquer projeto político é debater a questão da segurança pública, do encarceramento [em massa], do aumento do encarceramento das mulheres negras, a Lei de Drogas… e que, infelizmente, as pessoas, às vezes, não veem como um debate feminista quando para nós, feministas negras, é essencialmente um debate feminista”.

Na obra de Juliana Borges, pesquisadora em antropologia e escritora do livro “Encarceramento em Massa”, que faz parte da Coleção Feminismos Plurais organizado por Djamila Ribeiro, a autora destaca que, entre 2006 e 2014, a população feminina nos presídios aumentou em 567,4%, enquanto a média da população masculina encarcerada aumentou em 220%. Juliana destaca que 67% das mulheres encarceradas são negras, ou seja, duas em cada três mulheres presas são negras. Dentre os atos infracionais, há uma semelhança entre elas: vulnerabilidades sociais, necessidade de sustento dos filhos, desestruturação familiar, violência e abuso doméstico-sexual.

Com esses dados, resta clara a necessidade de se destacar as violências sofridas pelas mulheres negras e a necessidade de se discutir o que seria “lugar de fala”, um tema que Djamila discute há muito tempo e que, inclusive, possui um livro publicado abordando o assunto.

Acerca do lugar de fala, Djamila faz uma crítica: “as pessoas ainda entendem lugar de fala como um interdito quando é totalmente o contrário. As pessoas acham que lugar de fala é ‘ah… lugar de fala é não deixar as outras pessoas falarem’. Primeiro que é uma leitura equivocada porque nós, enquanto grupos disciplinados, não temos poder estrutural e institucional de impedir nada. Então, a única coisa que posso falar para um homem branco é ‘o que você falou é besteira’, mas ele não vai deixar de ser o opressor, o detentor dos meios de opressão, o grupo que está nas posições de poder”.

Sendo assim, percebe-se que há uma certa ignorância por parte da massa populacional em conhecer o conceito de lugar de fala, por isso é de extrema importância que se discuta tais temas sob a perspectiva de mulheres negras, que vivenciam realidades que outras mulheres brancas e homens brancos não estão inseridos.

Djamila explica o que seria esse conceito: “lugar de fala é justamente questionar esse lugar que é imposto pelo homem branco heterossexual que é a norma, como se ele fosse o único sujeito constituído de humanidade, de discurso, de saber, de produção… então, quando a gente fala em discutir lugares de fala, é discutir esses lugares sociais, discutir essas imposições e hierarquias violentas que estão impostas, que determinou quem é que pode ocupar os espaços, quem é que pode falar e quem não pode. Então, essencialmente, discutir lugar de fala é discutir essas hierarquias”.

As hierarquias que Djamila Ribeiro aponta, além de estar estruturadas acerca do recorte de raça, também possuem como base o recorte de classe, o que pode influenciar em uma narrativa que não valoriza os saberes das populações marginalizadas. Em ambas as suas obras, ao discutir a concentração da produção do conhecimento científico, Djamila destaca o que foi falado pela ativista, professora e antropóloga brasileira Lélia Gonzáles acerca da hierarquização de saberes enquanto fator estruturante do racismo no Brasil.

Sendo assim, questionou-se a Djamila quais os instrumentos que ela enxerga como necessários para combater essa hierarquização de saberes, valorizando o conhecimento científico produzido pelas populações socialmente vulneráveis. Ao responder, a filósofa destacou que “o primeiro é a gente continuar lutando nesse momento de desmonte da educação, de corte de verbas, de cortes de bolsas de pesquisa, pois entendo que esse é um momento muito crítico porque, de fato, a gente interrompe um processo muito importante que estava acontecendo nos últimos anos dessas pessoas que a gente tem como vulneráveis de estarem acessando a Universidade. Quando a gente fala que esse conhecimento não chega à periferia, a gente esquece que a maioria das pessoas negras que acessaram a Universidade vem de periferia e, muitas vezes, continuam morando em periferia, que essas pessoas continuam fazendo trabalhos dentro desses espaços”.

Enquanto solução, a ativista também aponta: “Devemos pensar também o que a gente está denominando enquanto saber, que é fundamental… essa visão que, muitas vezes a esquerda tem de ‘ah… temos que levar a luz à periferia’, quando, na verdade, as pessoas estão construindo resistência há séculos. Se você perceber as mulheres negras que empreendiam por necessidade e para sustentar os seus filhos e que, desde a época da escravidão, possuem estratégias que as pessoas criaram para poder resistir, para poder viver… a luta das mulheres por creches na década de 60, por exemplo, foi uma luta muito protagonizada por mulheres negras e periféricas… o movimento de moradia liderado majoritariamente por mulheres negras. Então, eu acho que, às vezes, é a academia quem precisa aprender também com esses saberes e entender que essas produções também são saberes. Então, você tem urbanistas discutindo o direito à cidade, mas você não conhece as mulheres do movimento pela moradia”.

O academicismo utilizado como instrumento de exclusão e a utilização da concentração epistemológica pelas classes dominantes, ricas e brancas são pautas discutidas por Djamila Ribeiro em suas obras e por Lélia Gonzales. Djamila faz uma crítica a isso afirmando que “a Universidade se colocou nesse pilar acima e não dialoga com os problemas

concretos da sociedade. Eu acho que as pessoas que estão dentro das universidades precisam romper esses muros e essa mentalidade, de determinar o que é saber e também de se colocar um degrau acima, não enxergando tudo o que está sendo construído historicamente que a gente não valoriza como saber. Também quero discutir qual a definição de saber como a Lélia Gonzales fala… então, você vê as pessoas falando em sustentabilidade como se fosse um assunto novo e não vê o que os povos indígenas estão fazendo historicamente e falam como se fosse algo super jovem e não discute com a realidade”.

Ao finalizar sobre esse debate, Djamila diz que “o caminho principal é romper com essa visão eurocêntrica, com essa visão do que eles determinam o que é saber, o que eles determinam o que é conhecimento científico. Tem que se discutir essa neutralidade. Eu sou de uma corrente filosófica que é contra essa neutralidade epistemológica, a gente não acredita em neutralidade. Então, eu acho que esses são os caminhos que eu entendo como essenciais”.

Questionar o que é verdadeiramente um saber e qual conhecimento científico é, de fato, relevante, é perpassar necessariamente por um reconhecimento de diferenças existentes, fazendo um recorte de gênero, raça e classe.

Sobre essas diferenças, Djamila aponta: “O Brasil é muito grande, são muitas as diferenças regionais, são vários Brasis dentro do Brasil. A realidade daqui de Mossoró e do Rio Grande do Norte é muito diferente da realidade de Salvador”.

“A gente gosta de homogeneizar, que é uma lógica colonizadora. Então, depois das minhas idas ao Norte, de poder conhecer essas mulheres, isso abriu muito a minha mente sobre a importância da gente dialogar e entender as nossas diferenças, como a gente pode dialogar com essas diferenças e pensar num projeto maior”, a filósofa sugere, encerrando a entrevista.

A importância de trazer as pautas que Djamila Ribeiro levanta em suas discussões para o interior do Rio Grande do Norte é de suma importância, tendo em vista que o Norte e o Nordeste são regiões com múltiplas diferenças e que apresentam dificuldades de acesso à educação e condições básicas de saúde e de segurança. Além disso, como a própria Djamila apontou em sua palestra no Congresso Científico da UnP, o Rio Grande do Norte é o estado em que mais morrem jovens negros em todo o Brasil, de acordo com o Atlas da Violência 2019, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Sendo assim, ao entender as diferenças existentes, destacando-as e nominando-as, será possível se pensar em um projeto político verdadeiramente inclusivo e seguro para todas e todos.

Equipe Lumos e Difunda com a Djamila Ribeiro

Roteiro e realização da entrevista: Brenda Licia, Heloisa Sousa, Junior Freitas e projeto Difunda (para conhecer mais visite o instagram @projetodifunda) 

Texto escrito por: Junior Freitas 

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