A primeira obra: O Duque e eu

Com o sucesso eminente do seriado Os Bridgertons, consequentemente a fama recai sobre a série de livros em que toda a produção cinematográfica é baseada. Estas obras foram escritas por Julia Quinn e lançados a partir dos anos 2000. A estória é situada em Londres no ano de 1813 e gira em torno de uma família rica e com muito prestígio.

A matriarca e Viscondessa Violet, tem como objetivo casar os 8 filhos. No primeiro livro somos apresentados a sua filha mais velha Daphne, que chegou à idade de debutar para a alta sociedade e está em busca de um matrimônio bem como ser mãe, sendo esse seu maior desejo.

Na sequência conhecemos o Duque Simon Basset, um homem jovem, solteiro e muito educado, que logo acaba virando alvo das mamães casamenteiras. Em um baile ele é apresentado a Daphne e páginas depois acabam tendo um romance, no qual é cheio de nuances e falta de comunicação.

Já que o mocinho tem dificuldade para conversar, sempre se mantendo fechado sobre seus sentimentos por conta de sua infância traumática, não desejando a paternidade para não levar o título adiante, sendo essa a vontade do seu pai. Por outro lado, a mocinha não entende o fato dele ser recluso, que se justifica pelo fato de ter tido uma criação completamente diferente.

Romanização do abuso

Próximo ao final, a Duquesa com o objetivo de ter um herdeiro abusa sexualmente do marido enquanto ele está bêbado e sonolento sendo uma vítima vulnerável. Ele tenta afastá-la, mas não consegue já que a companheira está por cima mantendo-o no lugar, tendo sua vontade negada até o final do ato. “Ela colocou a mão embaixo dele, usando toda sua força para segurá-lo embaixo dela. Não o perderia dessa vez. Não deixaria passar essa chance”.

No entanto na série isso foi alterado, o Duque estava sóbrio e a relação foi consentida, mas ele fala o nome dela com surpresa ao notar que não o deixaria praticar novamente o coito interrompido. Em ambas as produções Daphne não pediu desculpas ou se arrependeu de seus atos, pelo contrário, acreditou que os fins justificavam os meios.

Isto porque como uma dama solteira do século 19 não sabia como engravidar e nada sobre relações sexuais, aprendeu apenas depois do casamento e mesmo assim não sabia de tudo. Vindo a descobrir com uma criada como engravidar, já que antes não tinha conhecimento de que o fato de o marido não poder ter filhos não era devido ser infértil e sim porque fazia o coito interrompido a fim de evitar um herdeiro em virtude do passado com o pai abusivo.

Em seguida ao descobrir a mentira do esposo, a Duquesa fica irritada e prática o ato não permitindo que pare. Independente dos motivos, o que Daphne comete é um delito grave (analisando hodiernamente) e o fato da autora não ter mudado essa cena anos depois do lançamento irritou os fãs e leitores de sua obra, bem como terem colocado essa cena na série, sem nem ao menos levantar a pauta sobre essa violência.

Entendimento do Código Penal

Haja vista, o fato de ser um casal não torna o parceiro ou parceira, em um objeto que deve ceder as vontades do outro, e que sim pode acontecer com qualquer pessoa, não interessa o gênero da vítima ou do agressor. Como citado, no livro ela pratica a relação com seu cônjuge ébrio sendo assim, se fato ocorresse nos dias atuais no Brasil ela responderia por um estrupo de vulnerável disposto no artigo 217-A, parágrafo primeiro, do Código Penal.

Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos

Pena – reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.

  • 1o Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência.

Esse artigo teve alteração em 2009 quando até o ano citado, os abusos apenas eram aceitos quando a vítima era uma mulher e o homem o agressor. Devido essa mudança ser considerada recente, ainda há muito tabu em relação ao assunto, em que caras sentem vergonha pelo fato de muitas pessoas considerarem que o ato tirou sua masculinidade, por terem sido abusados, quando deveriam receber acolhimento sem julgamentos, já basta toda a culpa e medo que eles sentem ao falarem sobre.

Segundo a Quebrar o Silêncio, uma associação de acolhimento a adolescentes e adultos do sexo masculino que sofreram abusos sexuais, sediada em Portugal, 1 a cada 6 homens é abusado sexualmente antes dos 18 anos. Por ser uma situação muito traumática e muitas vezes vivenciadas na infância ou adolescência muitos denunciam ou contam sobre pela primeira vez quando já se passaram 20 a 30 anos da violência ocorrida. Infelizmente enquanto permanecer o hábito de colocarem a responsabilidade em que foi violado, os números só tendem a aumentar.

Conclusões

Posto isso, seria ideal um pronunciamento da Julia Quinn sobre o quão errado é a atitude de sua mocinha, e até mesmo uma alteração na cena de sua obra. Em razão de toda a fama recebida nos últimos meses por conta do lançamento do seriado muitas pessoas sem o devido conhecimento, ou a depender de sua idade, pode vim a considerar tal comportamento “normal” ou “aceitável” na vida de um casal após lerem os livros por influência da série.

Dessa maneira, a cultura pop possui muita importância nas mídias sociais, seja ela para ditar comportamentos, pensamentos ou formas de se vestir, em razão disso é necessário que determinados assuntos sejam tratados com a devida seriedade quando abordados, principalmente em um caso sério como o citado, sempre pontuando que a culpa é exclusivamente do(a) violador(a). Porque apesar de retratarem a narrativa em outra época, os livros estão tendo reconhecimento na era em que muitos direitos e crimes foram reconhecidos.

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